Hella S Moura (microcontos)

Os contos d’Hella.

Era uma vez

Era uma vez

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Era uma vez um homem que se acreditava um escritor. Um dia finalmente ele resolveu escrever um livro. Uma história que ele tinha um pouco vivido e um pouco mais inventado. Então ele se pôs a escrever. Ele não tinha o costume de escrever histórias, mas ele era realmente um escritor, sabe? Ele gostava de escrever. Quando o livro chegou a sessenta páginas ele resolveu ler o que tinha escrito. Pra seu espanto, à medida que ele ia lendo, o número de páginas ia diminuindo. Não era proporcional, quer dizer, se ele lesse três páginas, não eram três as páginas que desapareciam. Mas elas desapareciam, de alguma forma. No começo ele ficou curioso pra entender como é que acontecia das páginas desaparecerem, se havia alguma lógica aritmética, geométrica para aquele estranho fenômeno. Mas ele logo desistiu por que, se lesse mais, tinha medo de, de repente, estar em frente a apenas um branco, um vazio sem nada escrito, o que pra um escritor, mesmo um escritor que não tem costume de escrever histórias, é igual a um pesadelo. O que faria, então? Bom, a única forma de que as páginas não desapareçam é aumentá-las. Ele fechou os olhos e pulou logo pra última. Para seu alívio, o que ele havia escrito por último ainda estava lá. Mas ele não tinha mais coragem de procurar no meio da história o que afinal havia desaparecido. Em vez disso, ele se pôs a escrever como um louco. Resolveu escrever não só aquela história, mas tudo o que ele havia vivido e mais ainda inventado. Chegou um momento em que ele não tinha mais nada pra contar, mesmo que espremesse sua imaginação num processador de laranja, que faz suco. Então resolveu ver quantas páginas tinha sua história. Estranhamente, a história tinha apenas sessenta páginas, como da primeira vez, que ele parou pra ler. Não é possível, pensou o pobre escritor. Resolveu arriscar e folheou o escrito, de trás pra frente, muito rapidamente. Para seu espanto, ao final, havia realmente apenas uma página. Em branco. Aliás, não havia página nenhuma, havia apenas o escritor, apoiado na escrivaninha, com a mão na testa e um olhar misto de espanto com incredulidade. Mas naquele branco e naquela página nenhuma estava escrito tudo aquilo que o escritor havia escrito: o que ele viveu e o que ele inventou (ainda mais). Ele se levantou, abriu a janela e contemplou a paisagem. De mansinho, andou até a porta, saiu e a fechou sem fazer barulho. Desceu as escadas discretamente e foi pra rua.

Fim.

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22/06/2009 - Posted by | Uncategorized

1 Comentário »

  1. Muito bem! Gostei bastante desse!

    Comentário por Thiago | 22/07/2009 | Responder


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