Hella S Moura (microcontos)

Os contos d’Hella.

Despedidas

Despedida

Abraço carinhoso no meio de uma multidão vestida de branco, que se desloca para outro lugar. Não onde quero estar. Se eu gostasse não evitaria. Não acordaria sob o silêncio de portas fechadas, não comeria “o que encontrar” e não sairia antes que toda a casa acordasse. Mas não gosto. Não quero o abraço apertado, o tchauzinho, não quero.

Então é melhor aquele abraço carinhoso no meio de uma multidão, nós também vestidos de branco, o “foi muito bom” e o “quando você voltar a gente se vê” e enfim, dois passos em opostas direções já bastam para que não possamos mais nos ver, já que há uma multidão compacta, gente vestida de branco, indo numa direção, nem a minha, nem a sua.

Se me dessem a borracha, eu apagava todas as despedidas, todas elas, e as idas, as partidas, seriam somente idas e partidas e apenas.

Mas não. Devo abraçá-lo, ainda uma vez, no corredor amarelo de portas coloridas, acariciar sua nuca ainda uma vez e – sabe-se lá quando será a próxima – fingir palavras corajosas e, afinal, me despedir.

Retiro minha mochilinha de couro do raio xis e dou dois passos e volto a olhar para trás, contra todos os princípios racionais, vê-lo, e desta vez deformado pelos reflexos do vidro. Não quero vê-lo se afastando em meio a cadeiras e florestas de pernas até sumir por aquela porta do terminal 3 e para evitar, vou eu – finalmente sem olhar pra trás – descobrir qual é meu portão e disfarçar as gotas salgadas e teimosas olhando os jornais numa banca internacional. E entre bombas acolá e primeiras Primeiras Ministras ali, esticar o olho para sabê-lo acabando de cruzar o saguão, entre malas, pernas cinzeiros.

Eu achataria o tempo de forma a comprimir o que não quero e então as despedidas seriam reduzidas a um fechar de portas, a um clique no “sair” da tela, a um abotoar a derradeira casilha da camisa e pronto, e nada. E ninguém precisa daquilo.

Mas não. Mas é preciso que ele me acompanhe até a cidade de onde sai o trem, que carregue parte da bagagem e a ajuste ao bagageiro, que me faça tentar sorrir para uma foto onde se verá a janela deste trem verde, o desalinho dos meus cabelos de três dias de estrada que cruza o altiplano.

E a pressa do inevitável, que não me permite retornar à casinha de palha, e lança meus pertences numa caçamba, a mesma em que eu devo encontrar meu lugar de sentar, e o sacolejar dos primeiros metros de estrada não impedem que eu siga em silêncio vendo os telhados ficarem pequenos, o rio ficando distante. E se não é o vento tentando roubar os chapéus dos homens, é também uma despedida, a roubar distâncias pelo chão.

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22/06/2009 - Posted by | Uncategorized

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