Hella S Moura (microcontos)

Os contos d’Hella.

Em Terra de Cego II

Há muito, muito tempo atrás, houve uma Terra de Cego. Para se chegar lá era preciso cruzar as Sete Montanhas e atravessar a Densa Floresta. Nessa terra parece que houve uma maldição qualquer e todos pareciam nascer e morrer cegos. Trabalhavam feito formigas, arduamente, mas as coisas pareciam sempre continuar iguais. Não que ninguém se cansasse daquela vida, mas eles morriam cegos mesmo, então parecia que o jeito era continuar levando a vida.

Certo dia receberam a visita de um Casal que tinha um Filho. Ninguém se lembra mais como o Casal surgira ali. Provavelmente cruzaram as Sete Montanhas e atravessaram a Densa Floresta. Mas como é possível, se perguntavam os habitantes da Terra de Cego, que o Casal e o Filho falem a nossa língua? Não havia resposta. O curioso, que ninguém notou a princípio, é que o Casal e o Filho enxergavam com os dois olhos. Perceberam isso quando o Filho exclamou: Nossa que bonito! Bonito? O que poderia ser bonito ali? As coisas eram gostosas, quentes ou frias, ásperas ou lisas, macias, mas nunca bonitas.

No entanto, o Casal foi acometido de uma misteriosa doença e sucumbiu em poucos dias. O Filho não poderia ser enviado de volta ao Exterior por que era muito pequeno para cruzar sozinho a Densa Floresta e atravessar as Sete Montanhas. E apesar das esquisitices do menino, foi-lhe permitido ficar na Terra de Cego.

A princípio ele brincava sozinho com as formigas e os pequenos animais que por ali erravam. Mas logo os Meninos fizeram amizade com ele e começaram a brincar juntos. O Filho passou a ser muito querido pelos Meninos por que tinha o estranho hábito de contar histórias. Ele contava tudo o que tinha visto e ouvido no Exterior. E também na Grande Viagem que fez, cruzando as Sete Montanhas e atravessando a Densa Floresta. Eram histórias fantásticas e os Meninos cada vez mais Imaginavam como seria tudo aquilo. Os Meninos pediam mais e mais histórias, mas o Filho não tinha mais o que contar.

Foi então que ele decidiu contar o que Via ali na Terra de Cego mesmo. Contou que via os Meninos todos sentados na grama e que logo atrás deles estava uma árvore. Os Meninos ficaram quietos, cabisbaixos. Mas um Menino levantou a cabeça e estranhou tudo. Olhou para trás de si e exclamou: Estou Vendo! O quê, o quê, o quê? A árvore! E os Meninos sentados! Mas como? Você está na Terra de Cego! Estou vendo também o Filho sentado num toco! Não é possível, você não pode estar Vendo! Ah, não? Pois olhem vocês também. Todos olharam. Foi uma surpresa geral: todos Viam a árvore, o Filho, o toco e os outros Meninos. Resolveram perguntar ao Filho o que mais ele Via. Ele contou que via, atrás da árvore, um riacho. É verdade, também estamos Vendo! Do outro lado do riacho começa a Densa Floresta. Pra esquerda ficam as casas, as ruas, pra direita a igreja, onde o padre passa com sua batina preta e nós estamos na pracinha. É verdade, é verdade, nós também estamos Vendo. E o que mais você Vê? Vejo ao pé da árvore umas florezinhas que são Lindas. Lindas? Como assim Lindas? Vejam vocês mesmos. Puxa vida, elas são Lindas! Os Meninos estavam encantados. O Filho passou o resto da tarde contando histórias do que acontecera e acontecia ali mesmo, na Terra de Cego. As histórias não tinham fim e os Meninos Viam cada vez mais coisas. Coisas Belas e coisas Feias.

À noite, em cada casa de Menino, o jantar foi importunado por um Menino que contava e contava, maravilhado, tudo aquilo que tinha Visto junto com o Filho. Uma Mãe silenciosa escuta um Pai impaciente dizer: Ah é? Vocês Viram mesmo tudo isso? Então me diga, o que você Vê aqui? O Menino daquela casa se assustou. Não imaginou que fosse ser posto à prova daquela forma. Mas resolveu Olhar e disse: Vejo um prato de sopa. Silêncio. Vejo a Mãe com o cabelo desarrumado e um sorriso maroto. Vejo o Pai de pé, de costas para a mesa, com as mãos na cintura e a barba por fazer. O Pai não resistiu e deu uma espiada para trás. E lá estavam a sopa, a Mãe, o Sorriso. O Menino Notou o desconcerto do pai e insistiu ainda. Vejo que o sorriso da Mãe é Lindo. O sorriso, então, pareceu mais lindo quando o Menino disse aquilo. O Pai estava vencido. Sentou-se à mesa e pediu que ele continuasse a contar enquanto eles terminavam a sopa. Menino esquece a fome e conta, entusiasmado, o que vê, as cadeiras, a mesa, o lustre, o cachorro. Os Pais se entreolhavam encantados. O Pai, timidamente e quase inaudível, disse: eu também Vejo.

A transformação estava feita. Naquela noite, na Terra de Cego, não houve quem não saísse de casa com seu Menino para Contemplar as estrelas. Na manhã seguinte, logo cedo, os meninos correram para o pé da árvore à beira do riacho na pracinha, a esperar pelo filho. Ele veio puxando uma mala pequeneninha. Você já vai? Já. Não tem medo? Sim, um pouco. E como ficamos nós? Vocês estão bem. Eu vou estar bem. É só cruzar as sete florestas e atravessar a densa montanha. E para nós não vai dizer nada? Sim. Não esqueçam: não deixem jamais de Contar.

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13/05/2009 - Posted by | Uncategorized

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