Hella S Moura (microcontos)

Os contos d’Hella.

Retratos (nauticas)

Um navio que junta o caminho de um continente para uma Ilha, eu lá dentro, saiba, eu soube, que ninguém mais viaja de navio nesse mundo. Dá pra ver um pouco da Ilha se olhar de cá. Um vento forte não deixa aquela gente dormir.

Solto da mão da Pessoa e ando só, pela calçada do mundo. Muita luz, não sei se me entontece, mas há gente infinita que anda em direções diversas e parece mesmo que todo aquele movimento me hipnotiza. Parece que bêbado ou algo mais, não sei, caminha, caminho, assim, pra lá onde estou indo, também.

Ele me disse que não tinha esse tipo de pretensão, mas eu olho para seu rosto que fala e diz, e eu entendo que parece ter, sim, e eu também tenho. Um mendigo tenta calçar os chinelos na luminosidade excessiva dessa cidade de muito horizonte às cinco da tarde. Eu sozinha. Eu sempre tento olhar para os olhos do mendigo, para ver o que me dizem, mas não sei dizer se já consegui, é furtivamente, não sei. Eles carregam suas coisas às costas e parece que uma sede, não sei, pode ser que seja líquido.

Procurei pra você, mais uma vez, o interruptor de luz, mas nunca achei que precisasse de luz ali, se tateando, não sei. Sei que ventando demais no convés, parece que deixamos de ver uma porção de ilhas. Nauticamente as dimensões são sempre exageradas, toneladas e o vento não me parece tão ensurdecedor quanto essa música que toca baixinho aqui perto. Muito se repete e ela se repete muito. Gente fica tonta mas era isso mesmo. Tudo isso.

Ali fazia calor, mas eu jamais me importei por que o que fazia era te escutar, com o queixo apoiado na mão esquerda, vendo esvaziarem-se nossos copos e observando você. Eu queria saber o que é que você estava dizendo. Mas eu sabia tudo e pensei em ficar tímida quando você disse que eu estava muito calada. É estranho que seja necessário acender a luz. A luz acesa apaga o que era mesmo que eu estava sonhando. No sonho a gente descobria que nunca seria suficiente o tanto que se viajasse, que havia muito mundo e era sempre pouco. Era sempre pouco. As paisagens que existem já são demasiadas, muitas. Ninguém pensa em chegar à Ilha de navio e, no entanto, o navio estava cheio. No sonho tinha gente que se cansava e se sentava no sofá da sala de estar e outras decidiam sair assim mesmo.

Soltei da mão da Pessoa assim e caminhei mesmo, mais calçadas do que as que havia no caminho. Havia um mendigo sentado no banco pintado de verde da cidade seca. Era abundante a barba do seu rosto. Ele comia pão e oferecia uns pedaços para o cãozinho preto, atado a uma fita vermelha. Eu sei que eles se olhavam e ainda devem se olhar.

Você me disse que se angustiava, achava que não havia naquilo nada de original. E sorriu de ouvir que nada é novo depois dos helenos. E então, nós, futuro do pretérito. E tudo o mais com a música baixa, mas o calor diminuiu. Não sei se você mencionou que sentia medo quando me olhava nos olhos.

Ainda muita gente faz aquele trecho dentro de um navio. Não sei se ainda é o som de uma orquestra, mas parecia. Pareceria. Os copos se esvaziaram. O sol é assim. O sol se põe. O sol se foi.

Todos se cansaram e se retiraram, um a um. Se soltar da mão da pessoa e escutar o brusco ruído de corda que recolhe a âncora. O cãozinho preto também já se recolheu, juntando cauda e focinho, de olhos fechados e ouvidos atentos. Não precisa de luz. Ninguém disse adeus. Calçada de cimentos, cujos intervalos o capim invade. Repete-se. Quando a gente sabe o que sonhou, futuro do pretérito.

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07/05/2009 - Posted by | Uncategorized

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