Hella S Moura (microcontos)

Os contos d’Hella.

Retratos (foto)

Se olho a foto da praia torno a sentir saudades daquele dia. O frio, estranho para mim. O frio e diversas coisas mais, que preenchiam aquele dia de sorridente estranheza. E a minha satisfação em te ver com cara de menino. Conversávamos sobre tantas coisas sérias e bobas e todas as ironias que me são inevitáveis. E você, feito velho companheiro, habituado a elas, acrescentava as suas próprias.

A pedra que escolhemos para nos sentar, nos abrigando do vento, você preocupado com as previsões e esperando que as nuvens se dissipassem. Eu despreocupada das intempéries, retirando da bolsa uma garrafa verde, mais uma estranheza de um dia singular.

Sou incapaz de borrar da memória aquele teu olhar sincero e o sorriso de menino. Caminhando até a outra vila, subimos nas pedras. Falávamos de uma guerra velha, que já não nos toca, falávamos da gente rica que deve morar naquelas casas imensas, de frente pro mar. O mar te parecia infinito, você parecia contente e isso parecia me bastar. Tomamos café, rimos das crianças e suas bolas.

Retornamos, a maré havia baixado, o caminho parecia outro. Você precisava fazer um castelo de areia e eu não pude te ajudar: minhas mãos não estavam calejadas para aquela água gelada. Me sentei nas pedras e me pus a fazer o único que me restava: escrever. Você fez o castelo, as torres, o fosso e sentou junto de mim, ofegante e com as mãos vermelhas, geladas. Você cantou uma canção em minha língua e mostrou outra, na sua própria, que eu prometi aprender a gostar.

Não havia qualquer temor, qualquer questionamento, nada mais que nós, nossa satisfação e o mar. Dançamos meia música, os passos possíveis na nossa proximidade. Rimos de nós mesmos, coisa que deveriam fazer todos os que desejam ser levados a sério. Você me dizia por que tanto gosta dos ritmos e por que não gosta do que é antigo. Eu te dizia por que me maravilhava com a cena do navio no Amarcord: as pessoas minúsculas em seus barquinhos, um navio gigantesco, quem sabe como é por dentro, o mar de plástico e o velho intrigado com as estrelas. Desdenhávamos de tudo o que pudesse tornar aquele um passeio romântico, desdenhávamos intimamente do nós. E nos divertíamos com nossa maldade.

Nós não aparecemos na foto. Nada disso está na foto. Só a areia, cavalos, uma linha branca de tímida onda e o mar. Se olho a foto da praia, torno a sentir saudades daquele dia. Alguém jurou que o real não existia. Nada mais que nós, nossa satisfação e o mar.

(Para o Menino, minha neblina)

Anúncios

07/05/2009 - Posted by | Uncategorized

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: