Hella S Moura (microcontos)

Os contos d’Hella.

Retratos (navio)

Pequena multidão se acotovela, gente sorridente e ansiosa, o navio faz muita, muita força e se aproxima lentamente. O cheiro de fuligem é forte quando o vento desvira. As comportas se abrem, vê-se que lá dentro há também uma outra pequena multidão, gente cansada e paciente, enquanto o navio faz hélices fazerem borbulhas assustadoras. Toda aquela gente vai sair, toda essa gente vai entrar. Nenhum funcionário vai aspirar o pó do carpete azul. As dimensões são nauticamente exageradas, mesmo que as escadinhas de ferro pareçam minúsculas. Lá em cima, além do convés e do rolo preto de fumaça, lá em cima mesmo, é noite plena. E os felizardos vão notar quando as luzes se acenderem e vão notar que o navio começou a se afastar do cais. Não se viaja mais de navio.

Aqui e ali, uma estrada náutica junta as linhas do continente e da ilha. Das ilhas. Ninguém poderia dormir ao relento. É suave o balanço, implacável o vento.  O carpete azul será o repouso, ali, junto ao corrimão dourado. Alguém não sabe que é plena madrugada. Ficou gente nas ilhas, o sol nasceu no mar.  O sol também.

Nauticamente, as dimensões são exageradas. Lá de cima, do convés, as gentes no porto vão parecer pequeninas. Qual o nome da ilha? O sol vai se pôr do outro lado. Não se sabe pra onde olhar, se pro porto feito maquete, se pro pôr do sol. Dessa vez o corrimão será mais dourado, o carpete azul aspirado, e não importa o bolor de umidade que se formará nas escotilhas. O vento roubará o chapéu de um menino, um outro deitará ao mar a casca de uma fruta, tragada ao fundo pelas borbulhas da hélice que deixa pegadas verde-oliva no mar.

O vento vai deixar loucos os cabelos das mulheres e duros os rostos da gente que posa para a foto. Um pedaço de navio, um pedaço de ilha, um pedaço do sol e o vento impresso no rosto duro da gente que se esforça em sorrir.

07/05/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Retratos (foto)

Se olho a foto da praia torno a sentir saudades daquele dia. O frio, estranho para mim. O frio e diversas coisas mais, que preenchiam aquele dia de sorridente estranheza. E a minha satisfação em te ver com cara de menino. Conversávamos sobre tantas coisas sérias e bobas e todas as ironias que me são inevitáveis. E você, feito velho companheiro, habituado a elas, acrescentava as suas próprias.

A pedra que escolhemos para nos sentar, nos abrigando do vento, você preocupado com as previsões e esperando que as nuvens se dissipassem. Eu despreocupada das intempéries, retirando da bolsa uma garrafa verde, mais uma estranheza de um dia singular.

Sou incapaz de borrar da memória aquele teu olhar sincero e o sorriso de menino. Caminhando até a outra vila, subimos nas pedras. Falávamos de uma guerra velha, que já não nos toca, falávamos da gente rica que deve morar naquelas casas imensas, de frente pro mar. O mar te parecia infinito, você parecia contente e isso parecia me bastar. Tomamos café, rimos das crianças e suas bolas.

Retornamos, a maré havia baixado, o caminho parecia outro. Você precisava fazer um castelo de areia e eu não pude te ajudar: minhas mãos não estavam calejadas para aquela água gelada. Me sentei nas pedras e me pus a fazer o único que me restava: escrever. Você fez o castelo, as torres, o fosso e sentou junto de mim, ofegante e com as mãos vermelhas, geladas. Você cantou uma canção em minha língua e mostrou outra, na sua própria, que eu prometi aprender a gostar.

Não havia qualquer temor, qualquer questionamento, nada mais que nós, nossa satisfação e o mar. Dançamos meia música, os passos possíveis na nossa proximidade. Rimos de nós mesmos, coisa que deveriam fazer todos os que desejam ser levados a sério. Você me dizia por que tanto gosta dos ritmos e por que não gosta do que é antigo. Eu te dizia por que me maravilhava com a cena do navio no Amarcord: as pessoas minúsculas em seus barquinhos, um navio gigantesco, quem sabe como é por dentro, o mar de plástico e o velho intrigado com as estrelas. Desdenhávamos de tudo o que pudesse tornar aquele um passeio romântico, desdenhávamos intimamente do nós. E nos divertíamos com nossa maldade.

Nós não aparecemos na foto. Nada disso está na foto. Só a areia, cavalos, uma linha branca de tímida onda e o mar. Se olho a foto da praia, torno a sentir saudades daquele dia. Alguém jurou que o real não existia. Nada mais que nós, nossa satisfação e o mar.

(Para o Menino, minha neblina)

07/05/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Retratos (nauticas)

Um navio que junta o caminho de um continente para uma Ilha, eu lá dentro, saiba, eu soube, que ninguém mais viaja de navio nesse mundo. Dá pra ver um pouco da Ilha se olhar de cá. Um vento forte não deixa aquela gente dormir.

Solto da mão da Pessoa e ando só, pela calçada do mundo. Muita luz, não sei se me entontece, mas há gente infinita que anda em direções diversas e parece mesmo que todo aquele movimento me hipnotiza. Parece que bêbado ou algo mais, não sei, caminha, caminho, assim, pra lá onde estou indo, também.

Ele me disse que não tinha esse tipo de pretensão, mas eu olho para seu rosto que fala e diz, e eu entendo que parece ter, sim, e eu também tenho. Um mendigo tenta calçar os chinelos na luminosidade excessiva dessa cidade de muito horizonte às cinco da tarde. Eu sozinha. Eu sempre tento olhar para os olhos do mendigo, para ver o que me dizem, mas não sei dizer se já consegui, é furtivamente, não sei. Eles carregam suas coisas às costas e parece que uma sede, não sei, pode ser que seja líquido.

Procurei pra você, mais uma vez, o interruptor de luz, mas nunca achei que precisasse de luz ali, se tateando, não sei. Sei que ventando demais no convés, parece que deixamos de ver uma porção de ilhas. Nauticamente as dimensões são sempre exageradas, toneladas e o vento não me parece tão ensurdecedor quanto essa música que toca baixinho aqui perto. Muito se repete e ela se repete muito. Gente fica tonta mas era isso mesmo. Tudo isso.

Ali fazia calor, mas eu jamais me importei por que o que fazia era te escutar, com o queixo apoiado na mão esquerda, vendo esvaziarem-se nossos copos e observando você. Eu queria saber o que é que você estava dizendo. Mas eu sabia tudo e pensei em ficar tímida quando você disse que eu estava muito calada. É estranho que seja necessário acender a luz. A luz acesa apaga o que era mesmo que eu estava sonhando. No sonho a gente descobria que nunca seria suficiente o tanto que se viajasse, que havia muito mundo e era sempre pouco. Era sempre pouco. As paisagens que existem já são demasiadas, muitas. Ninguém pensa em chegar à Ilha de navio e, no entanto, o navio estava cheio. No sonho tinha gente que se cansava e se sentava no sofá da sala de estar e outras decidiam sair assim mesmo.

Soltei da mão da Pessoa assim e caminhei mesmo, mais calçadas do que as que havia no caminho. Havia um mendigo sentado no banco pintado de verde da cidade seca. Era abundante a barba do seu rosto. Ele comia pão e oferecia uns pedaços para o cãozinho preto, atado a uma fita vermelha. Eu sei que eles se olhavam e ainda devem se olhar.

Você me disse que se angustiava, achava que não havia naquilo nada de original. E sorriu de ouvir que nada é novo depois dos helenos. E então, nós, futuro do pretérito. E tudo o mais com a música baixa, mas o calor diminuiu. Não sei se você mencionou que sentia medo quando me olhava nos olhos.

Ainda muita gente faz aquele trecho dentro de um navio. Não sei se ainda é o som de uma orquestra, mas parecia. Pareceria. Os copos se esvaziaram. O sol é assim. O sol se põe. O sol se foi.

Todos se cansaram e se retiraram, um a um. Se soltar da mão da pessoa e escutar o brusco ruído de corda que recolhe a âncora. O cãozinho preto também já se recolheu, juntando cauda e focinho, de olhos fechados e ouvidos atentos. Não precisa de luz. Ninguém disse adeus. Calçada de cimentos, cujos intervalos o capim invade. Repete-se. Quando a gente sabe o que sonhou, futuro do pretérito.

07/05/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário