Hella S Moura (microcontos)

Os contos d’Hella.

(sem título – Poema)

Eu sou a toca onde os animais se escondem
O escuro onde se abrigam
das tempestades e das ondas de calor
Sou o aconchego da escuridão
Da umidade ancestral, do ventre materno
Sou o tato instintivo
Sou o mover-se por espaços adivinhados
Sou o adivinhar espaços movediços

Eu sou a noite das sutilezas
Parcamente iluminada por estrelas, vaga-lumes,
por luares inconstantes, por olhares felinos
Sou o silêncio alerta dos mamíferos
contra a algazarra incerta dos insetos
Sou o sereno, o frio e o vapor

Eu sou a fumaça que se esvai
das fogueiras temerosas, tímidas
Sou a fumaça que foge ao brilho e ao calor
rumo ao sabe-se lá onde, onde as faíscas não alcançam

Eu sou o silêncio coletivo do faltar-me as palavras
sou o adivinhar o som provável
de uma distante bandeira furiosa
Sou o vento, invisível, ensurdecedor,
a enfurecer bandeiras, destelhar chapéus, desordenar cabelos

Sou o que não se tateia, mas se ouve
Sou o que não se ouve, mas se vê
Sou o que não se vê, mas se adivinha
Sou o que não se adivinha, mas se sabe

07/02/2010 Posted by | Uncategorized | 1 Comentário

Despedidas

Despedida

Abraço carinhoso no meio de uma multidão vestida de branco, que se desloca para outro lugar. Não onde quero estar. Se eu gostasse não evitaria. Não acordaria sob o silêncio de portas fechadas, não comeria “o que encontrar” e não sairia antes que toda a casa acordasse. Mas não gosto. Não quero o abraço apertado, o tchauzinho, não quero.

Então é melhor aquele abraço carinhoso no meio de uma multidão, nós também vestidos de branco, o “foi muito bom” e o “quando você voltar a gente se vê” e enfim, dois passos em opostas direções já bastam para que não possamos mais nos ver, já que há uma multidão compacta, gente vestida de branco, indo numa direção, nem a minha, nem a sua.

Se me dessem a borracha, eu apagava todas as despedidas, todas elas, e as idas, as partidas, seriam somente idas e partidas e apenas.

Mas não. Devo abraçá-lo, ainda uma vez, no corredor amarelo de portas coloridas, acariciar sua nuca ainda uma vez e – sabe-se lá quando será a próxima – fingir palavras corajosas e, afinal, me despedir.

Retiro minha mochilinha de couro do raio xis e dou dois passos e volto a olhar para trás, contra todos os princípios racionais, vê-lo, e desta vez deformado pelos reflexos do vidro. Não quero vê-lo se afastando em meio a cadeiras e florestas de pernas até sumir por aquela porta do terminal 3 e para evitar, vou eu – finalmente sem olhar pra trás – descobrir qual é meu portão e disfarçar as gotas salgadas e teimosas olhando os jornais numa banca internacional. E entre bombas acolá e primeiras Primeiras Ministras ali, esticar o olho para sabê-lo acabando de cruzar o saguão, entre malas, pernas cinzeiros.

Eu achataria o tempo de forma a comprimir o que não quero e então as despedidas seriam reduzidas a um fechar de portas, a um clique no “sair” da tela, a um abotoar a derradeira casilha da camisa e pronto, e nada. E ninguém precisa daquilo.

Mas não. Mas é preciso que ele me acompanhe até a cidade de onde sai o trem, que carregue parte da bagagem e a ajuste ao bagageiro, que me faça tentar sorrir para uma foto onde se verá a janela deste trem verde, o desalinho dos meus cabelos de três dias de estrada que cruza o altiplano.

E a pressa do inevitável, que não me permite retornar à casinha de palha, e lança meus pertences numa caçamba, a mesma em que eu devo encontrar meu lugar de sentar, e o sacolejar dos primeiros metros de estrada não impedem que eu siga em silêncio vendo os telhados ficarem pequenos, o rio ficando distante. E se não é o vento tentando roubar os chapéus dos homens, é também uma despedida, a roubar distâncias pelo chão.

22/06/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Era uma vez

Era uma vez

1

Era uma vez um homem que se acreditava um escritor. Um dia finalmente ele resolveu escrever um livro. Uma história que ele tinha um pouco vivido e um pouco mais inventado. Então ele se pôs a escrever. Ele não tinha o costume de escrever histórias, mas ele era realmente um escritor, sabe? Ele gostava de escrever. Quando o livro chegou a sessenta páginas ele resolveu ler o que tinha escrito. Pra seu espanto, à medida que ele ia lendo, o número de páginas ia diminuindo. Não era proporcional, quer dizer, se ele lesse três páginas, não eram três as páginas que desapareciam. Mas elas desapareciam, de alguma forma. No começo ele ficou curioso pra entender como é que acontecia das páginas desaparecerem, se havia alguma lógica aritmética, geométrica para aquele estranho fenômeno. Mas ele logo desistiu por que, se lesse mais, tinha medo de, de repente, estar em frente a apenas um branco, um vazio sem nada escrito, o que pra um escritor, mesmo um escritor que não tem costume de escrever histórias, é igual a um pesadelo. O que faria, então? Bom, a única forma de que as páginas não desapareçam é aumentá-las. Ele fechou os olhos e pulou logo pra última. Para seu alívio, o que ele havia escrito por último ainda estava lá. Mas ele não tinha mais coragem de procurar no meio da história o que afinal havia desaparecido. Em vez disso, ele se pôs a escrever como um louco. Resolveu escrever não só aquela história, mas tudo o que ele havia vivido e mais ainda inventado. Chegou um momento em que ele não tinha mais nada pra contar, mesmo que espremesse sua imaginação num processador de laranja, que faz suco. Então resolveu ver quantas páginas tinha sua história. Estranhamente, a história tinha apenas sessenta páginas, como da primeira vez, que ele parou pra ler. Não é possível, pensou o pobre escritor. Resolveu arriscar e folheou o escrito, de trás pra frente, muito rapidamente. Para seu espanto, ao final, havia realmente apenas uma página. Em branco. Aliás, não havia página nenhuma, havia apenas o escritor, apoiado na escrivaninha, com a mão na testa e um olhar misto de espanto com incredulidade. Mas naquele branco e naquela página nenhuma estava escrito tudo aquilo que o escritor havia escrito: o que ele viveu e o que ele inventou (ainda mais). Ele se levantou, abriu a janela e contemplou a paisagem. De mansinho, andou até a porta, saiu e a fechou sem fazer barulho. Desceu as escadas discretamente e foi pra rua.

Fim.

22/06/2009 Posted by | Uncategorized | 1 Comentário

Em Terra de Cego I

Era uma vez uma terra de cego. Entre todos os cegos, havia apenas um, que não era. E ele era o rei. Ele era o rei dos cegos, apenas por que tinha um olho. Era um déspota. Mandava e desmandava, mas ninguém via nada. Difícil destituir um rei caolho, numa terra de cego. Mas um dia, um Maluco, tateando, entrou nos aposentos reais e com uma faca e apunhalou o rei. A faca também era cega e por isso a primeira punhalada não matou o rei. Houve um pouco de luta, mas os aposentos estavam às escuras. Para o Maluco era indiferente, mas para o rei não havia luz e enfim ele sucumbiu à faca cega do Maluco e morreu ensopado em um líquido quente. Poucas horas depois, quando amanheceu, descobriu-se o corpo morto do rei caolho. O camareiro gritou horrorizado e perguntou, em voz alta, quem havia feito aquilo. O Maluco, que estava ali mesmo, disse que fora ele. Quem é você? O Maluco. Os repórteres das rádios acorreram ao palácio e, quando se retirava o Maluco, algemado, choviam perguntas, como ele fizera aquilo, de onde surgiu essa idéia. E Maluco não respondia a nenhuma pergunta. Por fim, um repórter perguntou por que o Maluco tinha feito aquilo. Por que o rei era míope.

13/05/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Em Terra de Cego II

Há muito, muito tempo atrás, houve uma Terra de Cego. Para se chegar lá era preciso cruzar as Sete Montanhas e atravessar a Densa Floresta. Nessa terra parece que houve uma maldição qualquer e todos pareciam nascer e morrer cegos. Trabalhavam feito formigas, arduamente, mas as coisas pareciam sempre continuar iguais. Não que ninguém se cansasse daquela vida, mas eles morriam cegos mesmo, então parecia que o jeito era continuar levando a vida.

Certo dia receberam a visita de um Casal que tinha um Filho. Ninguém se lembra mais como o Casal surgira ali. Provavelmente cruzaram as Sete Montanhas e atravessaram a Densa Floresta. Mas como é possível, se perguntavam os habitantes da Terra de Cego, que o Casal e o Filho falem a nossa língua? Não havia resposta. O curioso, que ninguém notou a princípio, é que o Casal e o Filho enxergavam com os dois olhos. Perceberam isso quando o Filho exclamou: Nossa que bonito! Bonito? O que poderia ser bonito ali? As coisas eram gostosas, quentes ou frias, ásperas ou lisas, macias, mas nunca bonitas.

No entanto, o Casal foi acometido de uma misteriosa doença e sucumbiu em poucos dias. O Filho não poderia ser enviado de volta ao Exterior por que era muito pequeno para cruzar sozinho a Densa Floresta e atravessar as Sete Montanhas. E apesar das esquisitices do menino, foi-lhe permitido ficar na Terra de Cego.

A princípio ele brincava sozinho com as formigas e os pequenos animais que por ali erravam. Mas logo os Meninos fizeram amizade com ele e começaram a brincar juntos. O Filho passou a ser muito querido pelos Meninos por que tinha o estranho hábito de contar histórias. Ele contava tudo o que tinha visto e ouvido no Exterior. E também na Grande Viagem que fez, cruzando as Sete Montanhas e atravessando a Densa Floresta. Eram histórias fantásticas e os Meninos cada vez mais Imaginavam como seria tudo aquilo. Os Meninos pediam mais e mais histórias, mas o Filho não tinha mais o que contar.

Foi então que ele decidiu contar o que Via ali na Terra de Cego mesmo. Contou que via os Meninos todos sentados na grama e que logo atrás deles estava uma árvore. Os Meninos ficaram quietos, cabisbaixos. Mas um Menino levantou a cabeça e estranhou tudo. Olhou para trás de si e exclamou: Estou Vendo! O quê, o quê, o quê? A árvore! E os Meninos sentados! Mas como? Você está na Terra de Cego! Estou vendo também o Filho sentado num toco! Não é possível, você não pode estar Vendo! Ah, não? Pois olhem vocês também. Todos olharam. Foi uma surpresa geral: todos Viam a árvore, o Filho, o toco e os outros Meninos. Resolveram perguntar ao Filho o que mais ele Via. Ele contou que via, atrás da árvore, um riacho. É verdade, também estamos Vendo! Do outro lado do riacho começa a Densa Floresta. Pra esquerda ficam as casas, as ruas, pra direita a igreja, onde o padre passa com sua batina preta e nós estamos na pracinha. É verdade, é verdade, nós também estamos Vendo. E o que mais você Vê? Vejo ao pé da árvore umas florezinhas que são Lindas. Lindas? Como assim Lindas? Vejam vocês mesmos. Puxa vida, elas são Lindas! Os Meninos estavam encantados. O Filho passou o resto da tarde contando histórias do que acontecera e acontecia ali mesmo, na Terra de Cego. As histórias não tinham fim e os Meninos Viam cada vez mais coisas. Coisas Belas e coisas Feias.

À noite, em cada casa de Menino, o jantar foi importunado por um Menino que contava e contava, maravilhado, tudo aquilo que tinha Visto junto com o Filho. Uma Mãe silenciosa escuta um Pai impaciente dizer: Ah é? Vocês Viram mesmo tudo isso? Então me diga, o que você Vê aqui? O Menino daquela casa se assustou. Não imaginou que fosse ser posto à prova daquela forma. Mas resolveu Olhar e disse: Vejo um prato de sopa. Silêncio. Vejo a Mãe com o cabelo desarrumado e um sorriso maroto. Vejo o Pai de pé, de costas para a mesa, com as mãos na cintura e a barba por fazer. O Pai não resistiu e deu uma espiada para trás. E lá estavam a sopa, a Mãe, o Sorriso. O Menino Notou o desconcerto do pai e insistiu ainda. Vejo que o sorriso da Mãe é Lindo. O sorriso, então, pareceu mais lindo quando o Menino disse aquilo. O Pai estava vencido. Sentou-se à mesa e pediu que ele continuasse a contar enquanto eles terminavam a sopa. Menino esquece a fome e conta, entusiasmado, o que vê, as cadeiras, a mesa, o lustre, o cachorro. Os Pais se entreolhavam encantados. O Pai, timidamente e quase inaudível, disse: eu também Vejo.

A transformação estava feita. Naquela noite, na Terra de Cego, não houve quem não saísse de casa com seu Menino para Contemplar as estrelas. Na manhã seguinte, logo cedo, os meninos correram para o pé da árvore à beira do riacho na pracinha, a esperar pelo filho. Ele veio puxando uma mala pequeneninha. Você já vai? Já. Não tem medo? Sim, um pouco. E como ficamos nós? Vocês estão bem. Eu vou estar bem. É só cruzar as sete florestas e atravessar a densa montanha. E para nós não vai dizer nada? Sim. Não esqueçam: não deixem jamais de Contar.

13/05/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Retratos (navio)

Pequena multidão se acotovela, gente sorridente e ansiosa, o navio faz muita, muita força e se aproxima lentamente. O cheiro de fuligem é forte quando o vento desvira. As comportas se abrem, vê-se que lá dentro há também uma outra pequena multidão, gente cansada e paciente, enquanto o navio faz hélices fazerem borbulhas assustadoras. Toda aquela gente vai sair, toda essa gente vai entrar. Nenhum funcionário vai aspirar o pó do carpete azul. As dimensões são nauticamente exageradas, mesmo que as escadinhas de ferro pareçam minúsculas. Lá em cima, além do convés e do rolo preto de fumaça, lá em cima mesmo, é noite plena. E os felizardos vão notar quando as luzes se acenderem e vão notar que o navio começou a se afastar do cais. Não se viaja mais de navio.

Aqui e ali, uma estrada náutica junta as linhas do continente e da ilha. Das ilhas. Ninguém poderia dormir ao relento. É suave o balanço, implacável o vento.  O carpete azul será o repouso, ali, junto ao corrimão dourado. Alguém não sabe que é plena madrugada. Ficou gente nas ilhas, o sol nasceu no mar.  O sol também.

Nauticamente, as dimensões são exageradas. Lá de cima, do convés, as gentes no porto vão parecer pequeninas. Qual o nome da ilha? O sol vai se pôr do outro lado. Não se sabe pra onde olhar, se pro porto feito maquete, se pro pôr do sol. Dessa vez o corrimão será mais dourado, o carpete azul aspirado, e não importa o bolor de umidade que se formará nas escotilhas. O vento roubará o chapéu de um menino, um outro deitará ao mar a casca de uma fruta, tragada ao fundo pelas borbulhas da hélice que deixa pegadas verde-oliva no mar.

O vento vai deixar loucos os cabelos das mulheres e duros os rostos da gente que posa para a foto. Um pedaço de navio, um pedaço de ilha, um pedaço do sol e o vento impresso no rosto duro da gente que se esforça em sorrir.

07/05/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Retratos (foto)

Se olho a foto da praia torno a sentir saudades daquele dia. O frio, estranho para mim. O frio e diversas coisas mais, que preenchiam aquele dia de sorridente estranheza. E a minha satisfação em te ver com cara de menino. Conversávamos sobre tantas coisas sérias e bobas e todas as ironias que me são inevitáveis. E você, feito velho companheiro, habituado a elas, acrescentava as suas próprias.

A pedra que escolhemos para nos sentar, nos abrigando do vento, você preocupado com as previsões e esperando que as nuvens se dissipassem. Eu despreocupada das intempéries, retirando da bolsa uma garrafa verde, mais uma estranheza de um dia singular.

Sou incapaz de borrar da memória aquele teu olhar sincero e o sorriso de menino. Caminhando até a outra vila, subimos nas pedras. Falávamos de uma guerra velha, que já não nos toca, falávamos da gente rica que deve morar naquelas casas imensas, de frente pro mar. O mar te parecia infinito, você parecia contente e isso parecia me bastar. Tomamos café, rimos das crianças e suas bolas.

Retornamos, a maré havia baixado, o caminho parecia outro. Você precisava fazer um castelo de areia e eu não pude te ajudar: minhas mãos não estavam calejadas para aquela água gelada. Me sentei nas pedras e me pus a fazer o único que me restava: escrever. Você fez o castelo, as torres, o fosso e sentou junto de mim, ofegante e com as mãos vermelhas, geladas. Você cantou uma canção em minha língua e mostrou outra, na sua própria, que eu prometi aprender a gostar.

Não havia qualquer temor, qualquer questionamento, nada mais que nós, nossa satisfação e o mar. Dançamos meia música, os passos possíveis na nossa proximidade. Rimos de nós mesmos, coisa que deveriam fazer todos os que desejam ser levados a sério. Você me dizia por que tanto gosta dos ritmos e por que não gosta do que é antigo. Eu te dizia por que me maravilhava com a cena do navio no Amarcord: as pessoas minúsculas em seus barquinhos, um navio gigantesco, quem sabe como é por dentro, o mar de plástico e o velho intrigado com as estrelas. Desdenhávamos de tudo o que pudesse tornar aquele um passeio romântico, desdenhávamos intimamente do nós. E nos divertíamos com nossa maldade.

Nós não aparecemos na foto. Nada disso está na foto. Só a areia, cavalos, uma linha branca de tímida onda e o mar. Se olho a foto da praia, torno a sentir saudades daquele dia. Alguém jurou que o real não existia. Nada mais que nós, nossa satisfação e o mar.

(Para o Menino, minha neblina)

07/05/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário

Retratos (nauticas)

Um navio que junta o caminho de um continente para uma Ilha, eu lá dentro, saiba, eu soube, que ninguém mais viaja de navio nesse mundo. Dá pra ver um pouco da Ilha se olhar de cá. Um vento forte não deixa aquela gente dormir.

Solto da mão da Pessoa e ando só, pela calçada do mundo. Muita luz, não sei se me entontece, mas há gente infinita que anda em direções diversas e parece mesmo que todo aquele movimento me hipnotiza. Parece que bêbado ou algo mais, não sei, caminha, caminho, assim, pra lá onde estou indo, também.

Ele me disse que não tinha esse tipo de pretensão, mas eu olho para seu rosto que fala e diz, e eu entendo que parece ter, sim, e eu também tenho. Um mendigo tenta calçar os chinelos na luminosidade excessiva dessa cidade de muito horizonte às cinco da tarde. Eu sozinha. Eu sempre tento olhar para os olhos do mendigo, para ver o que me dizem, mas não sei dizer se já consegui, é furtivamente, não sei. Eles carregam suas coisas às costas e parece que uma sede, não sei, pode ser que seja líquido.

Procurei pra você, mais uma vez, o interruptor de luz, mas nunca achei que precisasse de luz ali, se tateando, não sei. Sei que ventando demais no convés, parece que deixamos de ver uma porção de ilhas. Nauticamente as dimensões são sempre exageradas, toneladas e o vento não me parece tão ensurdecedor quanto essa música que toca baixinho aqui perto. Muito se repete e ela se repete muito. Gente fica tonta mas era isso mesmo. Tudo isso.

Ali fazia calor, mas eu jamais me importei por que o que fazia era te escutar, com o queixo apoiado na mão esquerda, vendo esvaziarem-se nossos copos e observando você. Eu queria saber o que é que você estava dizendo. Mas eu sabia tudo e pensei em ficar tímida quando você disse que eu estava muito calada. É estranho que seja necessário acender a luz. A luz acesa apaga o que era mesmo que eu estava sonhando. No sonho a gente descobria que nunca seria suficiente o tanto que se viajasse, que havia muito mundo e era sempre pouco. Era sempre pouco. As paisagens que existem já são demasiadas, muitas. Ninguém pensa em chegar à Ilha de navio e, no entanto, o navio estava cheio. No sonho tinha gente que se cansava e se sentava no sofá da sala de estar e outras decidiam sair assim mesmo.

Soltei da mão da Pessoa assim e caminhei mesmo, mais calçadas do que as que havia no caminho. Havia um mendigo sentado no banco pintado de verde da cidade seca. Era abundante a barba do seu rosto. Ele comia pão e oferecia uns pedaços para o cãozinho preto, atado a uma fita vermelha. Eu sei que eles se olhavam e ainda devem se olhar.

Você me disse que se angustiava, achava que não havia naquilo nada de original. E sorriu de ouvir que nada é novo depois dos helenos. E então, nós, futuro do pretérito. E tudo o mais com a música baixa, mas o calor diminuiu. Não sei se você mencionou que sentia medo quando me olhava nos olhos.

Ainda muita gente faz aquele trecho dentro de um navio. Não sei se ainda é o som de uma orquestra, mas parecia. Pareceria. Os copos se esvaziaram. O sol é assim. O sol se põe. O sol se foi.

Todos se cansaram e se retiraram, um a um. Se soltar da mão da pessoa e escutar o brusco ruído de corda que recolhe a âncora. O cãozinho preto também já se recolheu, juntando cauda e focinho, de olhos fechados e ouvidos atentos. Não precisa de luz. Ninguém disse adeus. Calçada de cimentos, cujos intervalos o capim invade. Repete-se. Quando a gente sabe o que sonhou, futuro do pretérito.

07/05/2009 Posted by | Uncategorized | Deixe um comentário